Ao contrário daquilo que se passa agora, eu já fui um miúdo inteligente! E então para a malandrice, não havia ninguém da minha geração que me batesse! Quando penso nos meus feitos extraordinários de outrora, apetece-me puxar as orelhas a mim próprio. Garanto-vos que se não fosse anti-pedagógico e doesse um bocadito, o faria de certeza!
No meio da minha irreverência infantil decidi um dia ajudar a minha mãe na limpeza de alguns plásticos usados na vindima (não me apetece fazer especificações técnicas).
Parece-vos uma atitude de louvar? Enganaram-se! Na vez de passar um pano nos ditos materiais, achei-me demasiado inteligente e tentei apressar o processo. Sendo assim, estendi um dos plásticos ao comprido e sacudi-o para que toda a sujidade voasse para bem longe!
Vamos agora aos erros!
1.º - quando os outros sabem mais do que nós devemos fazer como nos ensinam;
2.º - quando aceleramos um processo, devemos pensar naquilo que poderá correr mal. Afinal a teoria do "devagar se vai ao longe" deverá ter algum sentido;
3.º - as crianças não devem limpar plásticos.
Ignorados estes erros, e alicerçado na auto-confiança de um miúdo de 9 anos, dei um belo abanão naquele plástico sujo! Foi espectacular ver aquela sujeira toda a voar para bem longe. Pedaços de parra e arganaços, restinhos de folhas, pontinhas de paus e de ervas, pequenos e médios insectos... tudo voava em direcções diferentes no largo da aldeia... Foi lindo...
O pior, pior foi depois... Não sei como, deixei de conseguir movimentar-me, os braços continuavam esticados e uma abelha indiscreta olhava para a minha cara de dor. Aquele abanão deu-me tal jeito na coluna que nem me conseguia mexer... As lágrimas corriam-me pela cara abaixo como um ribeiro em Novembro... e aquele maldito plástico parecia rir-se de mim... Valeu-me a minha mãe que numa mistura de "tinha-te dito... e ... que tens?" me tententava trazer à Terra num olhar amedrontado...
Já passaram 18 anos, mas guardo em mim (literalmente) uma recordação desse dia. Uma bela L5 diagnosticada num TAC de rotina... digam lá se as memórias não são eternas...




Será que podia fotografar a Serra e o peixe e não ligar nada a isto, nem inventar teorias mentais parvas e massacrar-vos com esta escrita inútil e lida por dois leitores amigos! Poder, podia, mas não era a mesma coisa!